sexta-feira, 8 de maio de 2015

ABF: Petrus Logus - O Guardião do Tempo

Não me interprete mal. Juro, não é implicância minha!
Quando eu resolvo pegar um livro recente de autoria de um brasileiro eu sempre inicio pré-disposta a gostar. Eu realmente QUERO gostar. Até me esforço pra isso... Mas ultimamente não tenho dado sorte. Talvez eu apenas esteja escolhendo os livros errados... Não quero, de modo algum, deixar de me interessar por livros nacionais do gênero! Mas está cada vez mais difícil não desistir.

Eu vi esse livro acho que um ou dois meses atrás em uma livraria. De longe a capa me chamou a atenção (de perto eu vi que o desenho dela não era tão bem-feito quanto parecia, mas não me importei), depois me surpreendi com o nome do autor, pois Augusto Cury é mais conhecido por escrever auto-ajuda e isso atiçou minha curiosidade. A sinopse me pareceu interessante e então eu decidi incluí-lo na minha Wish List (que é gigantesca).

Encontrei ele recentemente em promoção na Saraiva e decidi aproveitar a promoção. 

Logo de início o texto me desanimou e passei a lê-lo a passo de tartaruga, lendo apenas por ler, porque tinha comprado e porque já tinha começado. No final já estava tão desanimada que estava lendo roboticamente, sem nenhuma emoção e nas últimas páginas estava pulando trechos do texto (coisa que só fiz com, o igualmente ruim, Inverno das Fadas).

A narrativa não é nem um pouco cativante. O texto não tem charme nenhum, não é do tipo que te prende por horas a fio. É chato, é excessivamente didático e metódico, é pedante. Parece que todos os personagens estão fazendo discursos elaborados o tempo todo (inclusive os adolescentes) e o autor também faz muito discurso moral ao longo da narrativa em si. Há muito vício de escrita. Não no sentido de erros do uso da norma culta, mas no sentido de repetições constantes das mesmas palavras e expressões. O mais grave (e mais irritante) pra mim, é o excesso do uso do sufixo "íssimo": os crimes sempre são gravíssimos, o rei sempre está preocupadíssimo, o príncipe ficou magoadíssimo, os soldados são fortíssimos, a namorada é lindíssima, a paisagem é belíssima, os impostos são caríssimos, fulano ficou abaladíssimo e assim por diante... Não se passa UMA página sem que essas palavras com superlativos apareçam ao menos uma vez.

O mundo criado pelo autor é uma mistura de futurismo pós-apocalíptico distópico com retrocesso tecnológico extremo (ao ponto de não ter nem carro, eletricidade ou telefone fixo) e social (usando como referência Roma constantemente). O problema é que esse mundo não é nem um pouco convincente, coerente, plausível, não possui nenhuma verossimilhança. É tudo esquisito, forçado demais... Sem contar que ele usa ao longo do texto frequentemente palavras e expressões que soam alienígenas à esse tipo de obra (fantasia, aventura, distopia) e à sociedade que ele descreve. Por exemplo: "habilidades socioemocionais" e "máquina estatal". E ficam pior ainda na boca de personagens adolescentes com falas ultra-rebuscadas.

Os nomes dos personagens masculinos, de todos exceto o rei Apolo, terminam em "us", no que me pareceu uma tentativa tosca de usar nomes que soem derivados do latim, nomes forçadamente romanizados. Um ou outro, não teria problema. Mas TODOS? O engraçado é que os poucos nomes femininos que aparecem não tem nenhuma co-relação desse tipo (Ellen, Bianca, Nátila). Muitos dos nomes são ridículos e me deram muita vergonha alheia pela falta de criatividade ao tentar associá-los à personalidade do indivíduo. Exemplos: Terrívius (realmente, é um nome Terrível), Demétrius, Sanus, Laurus, Lexus, Sarantus, Superius, Brutus, Piradus, Malthus, Cômodus, Instinctus, etc... sem contar o nome do próprio império: Cosmus.

Aliás, ele diz várias vezes que é o maior império do planeta, mas não define em que região a história se passa. Me pareceu que ele estivesse tentando com isso, talvez, fazer referência a 1984. Há referências também - muito mal utilizadas - a outras obras, como A Máscara de Ferro, Fronteiras do Universo (Instinctus é um tipo de daemon de Petrus).

Quase não há descrições físicas, de pessoas ou lugares, além do estritamente necessário. Não tem nenhum mapa, de modo que não dá pra saber onde os personagens estão, em que direção estão indo, onde ficam os lugares citados. O autor não faz a menor ideia de como descrever uma jornada, uma campanha, uma batalha ou até mesmo uma luta corpo a corpo. E - o grande problema do livro - é que ele acha que pode substituir essas descrições ESSENCIAIS em uma obra de Fantasia com verborragia exclusiva da sua área de atuação profissional, ou seja, a psicologia, colocada de tal forma que soa como psicologia das mais baratas. Cheio de discursos, frases feitas de grandes autores do passado e muito, mas muuuuito clichê comportamental.


Personagens Bidimensionais

Praticamente todos os personagens são 100% estereotipados. Um dos amigos de Petrus, por exemplo, Laurus é o único personagem negro. Suas características de personalidade são ser "extremamente engraçado" (segundo o autor, porque não vi graça nenhuma em suas tiradas forçadas), o palhaço da turma que adora contar vantagem e... ser burro. Sério! O personagem é uma porta! Toda vez que há uma conversa sobre um assunto sério ele fica reclamando que não está entendendo nada. Ao mesmo tempo o autor faz discursos enormes sobre preconceito e escravidão.


O mestre sábio, guia intelectual e espiritual de Petrus, Malthus, é... adivinha? Surprise, surprise! De descendência asiática, muito velho e de barba branca (mas consegue lutar com maestria mesmo sendo muito velho).

A namorada, Nátila, é uma típica donzela endeusada e, no final, bem... digamos que o autor achou que tinha feito uma grande reviravolta, mas só a transformou em uma típica Maria Madalena.

O personagem principal, príncipe Petrus, parece um mocinho de novela antiga. É desprezado, desacreditado e desqualificado dentro do seu mundo, mas é colocado no mais alto pedestal pelo autor, fazendo-o parecer a perfeição em pessoa rodeado de um bando de pessoas que ou são acéfalas ou são necessariamente ruins, corruptas, orgulhosas e maliciosas (e totalmente clichêrizadas). Nem preciso dizer que ele é O Escolhido (*revira os olhos*).

O romance entre Petrus e Nátila é muito, muito, muuuiiiito forçado e piegas. Também não me convence nem um pouco!



Ideias Mal Trabalhadas

A história só começa a andar, de fato, depois da metade. Ou seja, você precisa encarar mais de 150 páginas de puro blá blá blá (o livro tem 290 no total). Daí, por algumas páginas, parece que a coisa vai começar a melhorar, a ficar minimamente interessante e então despenca a qualidade vertiginosamente. O autor simplesmente NÃO sabe escrever narrativa, muito menos narrativa fantástica.

O texto dele simplesmente não flui. Mas o pior de tudo é que é um texto claramente doutrinador, inclusive no sentido religioso. Chega a ser ultrajante, porque você sente que o autor pensa que o leitor é burro demais pra notar que ele usou uma história fantasiosa (só para aproveitar a moda) para te fazer engolir suas ideias na marra. Não é que todas as ideias do livro sejam ruins ou erradas. Até concordo com várias delas - não todas. O problema é que ele não sabe, não faz a menor ideia, de como trabalhá-las. Augusto Cury não sabe ser sutil. Só pra dar alguns exemplos de livros DELICIOSOS que tratam de assuntos importantes e até de polêmicas sem serem maçantes e discursivos (assuntos como política, filosofia, bullying, homossexualidade, religião, escravidão, vida e morte, ética, corrupção, civilidade, preconceito, etc...): Ciclo da Herança (Eragon), Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Jogos Vorazes. Até mesmo Fronteiras do Universo (que tem uma forte polêmica religiosa). Todos eles abordam os estes assuntos, mas de uma forma diluída, orgânica e sem prejuízo da narrativa em si (ou seja, o que os personagens estão fazendo, onde estão, para onde estão indo - no mapa -, como são, o que vestem, o que fazem, seu passado, suas dúvidas sobre o futuro) e sem colocar discursos eruditos na boca de adolescentes, embora suas ideias e dúvidas sejam (bem) vocalizadas.

Sinceramente, de coração, eu entendi a mensagem que o autor quis passar - a crítica social -, mas ele demonstrou uma enorme falta de habilidade para escrever narrativa YA e fantástica. Existem meios, técnicas de passar uma mensagem crítica e importante sem esfregá-la na cara do leitor a cada página e deixando todo o resto de lado. Ao tentar passar profundidade acabou sendo justamente superficial. Ele não consegue cativar, chamar a atenção do leitor, fazê-lo mergulhar naquele mundo e querer se aprofundar nele.
Eu até gosto de diálogos longos, complexos, filosóficos, explicativos... mas eles precisam ser bem desenvolvidos. E esse definitivamente não é o caso de Petrus Logus.

Ao que parece a história foi planejada para ter continuação. Não sei se será só mais um livro, se será trilogia ou se terá mais de 3... Só sei que eu não vou me interessar em ler os próximos, sejam quantos forem. Não me conquistou. E, estranhamente, apesar de ser um lançamento, já é confirmado na orelha da capa que será adaptado para o cinema. Fiquei curiosa pra saber se será nacional (sendo que o cinema brasileiro NÃO tem tradição em FC & F, o que aumenta ainda mais a possibilidade de se transformar numa enorme cagada pior que o próprio livro) ou se será internacional. Outra curiosidade é se vão conseguir torná-lo tragável e se vão ignorar os discursos excessivos, cansativos, enfadonhos, longos...

Com certeza absoluta, NÃO RECOMENDO!

A única coisa boa que consigo enxergar nele é que é um manual do que NÃO fazer ao escrever um livro de Fantasia YA.

2 comentários:

Wagnus disse...

Sinto muitíssimo.

Luck N.L. disse...

Muito boa a sua crítica. Eu tenho os dois da coleção e notei esses erros. Mas inexplicávelmente eu me apaixonei pelo universo criado no livro. A leitura funcionou comigo apesar de eu reconhecer que ele não foi bem escrito.

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